Ao longo do Especial AU 2026, diferentes profissionais compartilharam suas percepções sobre as transformações que estão redefinindo a engenharia, a construção e a manufatura.
Na visão de Léo Onuchic, Diretor Adjunto da NTI Brasil, a inteligência artificial e os dados conectados estão impulsionando uma nova geração de soluções e mudando a forma como as empresas projetam, constroem e fabricam.
Kelly Tonon, Gerente de Contas Estratégicas da NTI Brasil, destacou a importância das conexões humanas, da colaboração e dos relacionamentos capazes de transformar tecnologia em oportunidades concretas.
Já Paulo Santos, Head de Design & Manufacturing da NTI Brasil, aprofundou a discussão sobre PLM, Digital Thread e a necessidade de estabelecer uma base confiável de informações para que a inteligência artificial possa apoiar os processos de engenharia.
Agora, essa conversa avança a partir da visão de Marcio Milagres, New Business Director da Draft Solutions, que identifica um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas: transformar conhecimento, tecnologia e informação em capacidade real de entrega.
Para Marcio, essa foi uma das mensagens mais importantes do Autodesk University 2026.
As empresas não enfrentam necessariamente uma escassez de ideias. Muitas já contam com tecnologias avançadas, profissionais experientes e processos de digitalização em andamento. O gargalo está na capacidade de responder a demandas crescentes, conectar as diferentes etapas dos projetos e transformar grandes volumes de informação em decisões rápidas e confiáveis.
Nesse cenário, a inteligência artificial deixa de ser vista apenas como uma ferramenta de automação e passa a representar uma forma de ampliar a capacidade humana e organizacional.
Mas essa transformação depende de uma condição fundamental: dados bem estruturados desde o início do projeto.
“O AU 2026 girou em torno de uma palavra: capacidade. O gargalo das nossas indústrias não é falta de ideias, é a capacidade de entregar. E a IA passou a ser tratada como resposta a isso.”
Marcio Milagres
New Business Director | Draft Solutions
A discussão deixou de ser apenas sobre ferramentas
Durante muitos anos, a transformação digital da engenharia esteve associada principalmente à adoção de novas ferramentas.
Processos manuais foram digitalizados. Modelos tridimensionais, simulações e ambientes colaborativos passaram a apoiar o desenvolvimento e a coordenação de projetos cada vez mais complexos. O BIM ampliou a capacidade das equipes de integrar disciplinas, analisar interferências e construir uma visão mais consistente dos empreendimentos.
Essa evolução continua. No entanto, para Marcio, o AU 2026 mostrou que a discussão atingiu um novo nível de maturidade.
A questão já não está apenas em qual software utilizar, qual tarefa automatizar ou qual plataforma incorporar. A conversa passou a considerar como a engenharia é desenvolvida, entregue e utilizada ao longo do tempo.
Na Draft Solutions, o desenvolvimento de projetos em BIM, o escaneamento a laser e a simulação de processos já fazem parte da rotina. Essas tecnologias permitem representar condições existentes, analisar cenários, coordenar diferentes disciplinas e aumentar a confiabilidade das decisões.
O próximo passo é garantir que os dados produzidos durante o projeto não percam seu valor depois da implantação.
Modelos, levantamentos, especificações, simulações e decisões técnicas poderiam continuar apoiando os clientes durante muitos anos. Para isso, porém, as informações precisam ser estruturadas desde o início com uma visão de continuidade.
“Um modelo feito só para construir é uma maquete cara.”
Marcio Milagres
New Business Director | Draft Solutions
A frase sintetiza uma mudança importante na forma de compreender o BIM.
Seu verdadeiro valor não está apenas na representação visual, na compatibilização ou na entrega da obra. Ele aparece quando o modelo se torna uma base confiável de dados, capaz de acompanhar o ativo durante sua operação, manutenção e evolução.
O valor do projeto continua depois da entrega
A vida útil de um ativo é muito maior do que o período dedicado ao projeto e à implantação.
Depois que uma instalação entra em operação, surgem novas necessidades: manutenção, inspeções, substituição de componentes, ampliação de capacidade, adequações regulatórias e modernização dos sistemas.
É justamente nessa fase que muitas organizações encontram uma ruptura entre aquilo que foi projetado e o que efetivamente passou a operar.
Documentos podem não refletir as condições finais do ativo. Modelos podem estar desatualizados. Informações relevantes podem permanecer distribuídas entre diferentes sistemas ou depender do conhecimento individual de profissionais mais experientes.
Como consequência, as equipes responsáveis pela operação frequentemente precisam procurar, validar ou até reconstruir informações que já foram produzidas anteriormente.
Essa descontinuidade gera retrabalho, custos e riscos. Também reduz a capacidade da organização de responder rapidamente a falhas, mudanças e novas demandas.
Para Marcio, o projeto deve ser compreendido como o primeiro capítulo de uma jornada informacional mais longa. Isso significa desenvolver modelos e estruturas de dados considerando não apenas o que será necessário para construir, mas também aquilo que será necessário para operar, manter e transformar o ativo durante décadas.
É nesse contexto que os gêmeos digitais ganham relevância.
Um gêmeo digital não deve ser entendido apenas como uma representação tridimensional de uma instalação. Seu valor está na possibilidade de conectar o ativo físico a uma estrutura digital que reúne contexto, dados, condições operacionais e informações atualizadas.
Dependendo da aplicação e da maturidade da empresa, essa estrutura pode apoiar monitoramento, simulações, análises de desempenho, manutenção e tomada de decisão.
Essa evolução, no entanto, não começa quando a obra termina. Ela começa na forma como o projeto é estruturado.
Quando os requisitos operacionais são considerados desde as primeiras etapas, o modelo deixa de funcionar apenas como um entregável e começa a constituir uma base para a gestão do ativo.
A pergunta deixa de ser apenas “o que conseguimos modelar?” e passa a ser:
Quais informações ajudarão este ativo a ser operado com mais segurança, eficiência e previsibilidade?
Um ativo existente também pode ter um futuro digital
Entre os exemplos apresentados durante o AU 2026, um caso chamou especialmente a atenção de Marcio: um sistema metroviário com décadas de operação que passou a utilizar BIM como plataforma para uma estratégia de manutenção preditiva, conectando modelos, sensores e inteligência artificial.
O exemplo demonstra que a transformação digital não está restrita a novos empreendimentos.
A integração entre informações de engenharia e dados operacionais pode ajudar uma organização a compreender melhor as condições de seus ativos, antecipar falhas e identificar potenciais gargalos.
A manutenção deixa de acontecer somente como resposta a um problema já ocorrido e passa a contar com informações capazes de apoiar decisões mais previsíveis.
Essa perspectiva possui uma conexão direta com a realidade brasileira.
Fábricas, instalações e infraestruturas construídas há décadas continuam desempenhando funções essenciais. Em muitos casos, esses ativos foram modificados ao longo do tempo sem que a documentação acompanhasse todas as alterações realizadas.
Plantas podem estar desatualizadas, informações podem se encontrar dispersas e parte importante do conhecimento pode estar concentrada em profissionais específicos.
Isso não significa que esses ativos estejam excluídos da transformação digital.
Com escaneamento a laser, levantamento das condições existentes, modelagem, estruturação dos dados e integração com informações operacionais, é possível iniciar uma jornada de digitalização mesmo quando a instalação não nasceu digital.
“Não é preciso construir um ativo novo para ter um gêmeo digital. É preciso decidir fazê-lo.”
Marcio Milagres
New Business Director | Draft Solutions
Essa jornada não precisa começar com um projeto excessivamente complexo.
O ponto de partida pode ser uma necessidade específica: reduzir paradas inesperadas, organizar a documentação, melhorar o acesso às informações, digitalizar componentes críticos ou aumentar a confiabilidade da manutenção.
Ao começar por um problema real, a empresa consegue estabelecer prioridades, acompanhar os resultados e ampliar a iniciativa progressivamente.
Inteligência artificial para ampliar a capacidade humana
Para a Draft Solutions, o principal valor da inteligência artificial não está apenas na redução de custos ou na substituição de atividades. A maior oportunidade está em ampliar a capacidade das pessoas de gerar valor.
Engenheiros e especialistas ainda dedicam parte significativa de seu tempo a tarefas essenciais, mas repetitivas: localizar informações, conferir documentos, verificar requisitos, comparar alternativas e analisar grandes volumes de conteúdo.
A inteligência artificial pode ajudar a acelerar etapas como:
Verificação de documentos;
Análise preliminar de conformidade;
Identificação de inconsistências;
Comparação entre alternativas;
Organização e recuperação de informações;
Apoio à avaliação de requisitos;
Automatização de tarefas repetitivas.
Com isso, o engenheiro ganha mais tempo para atividades que exigem experiência, julgamento técnico, criatividade e responsabilidade.
Essa perspectiva está alinhada à lógica da Indústria 5.0, na qual a tecnologia atua a serviço das pessoas e dos resultados da organização. Não se trata de retirar o profissional do processo, mas de oferecer melhores condições para que ele desempenhe seu trabalho.
“A IA entra para acelerar o que é repetitivo e deixar o engenheiro no que exige julgamento.”
Marcio Milagres
New Business Director | Draft Solutions
A revisão humana continua sendo indispensável, especialmente em atividades que envolvem segurança, conformidade e responsabilidade técnica.
Também é necessário manter transparência sobre os limites da tecnologia, compreendendo o que já pode ser realizado com consistência, o que ainda está em desenvolvimento e quais decisões não devem ser tomadas sem validação.
Não existe inteligência sem dados e contexto
A capacidade da inteligência artificial de apoiar a engenharia depende diretamente da qualidade das informações às quais ela tem acesso.
Um sistema pode interpretar textos, resumir documentos e reconhecer padrões. Mas, sem compreender o contexto do projeto ou do ativo, suas respostas podem não ser suficientes para orientar uma decisão técnica.
Na engenharia, contexto significa identificar qual documento está válido, qual revisão deve ser considerada, quais requisitos precisam ser atendidos, quais componentes estão instalados e como uma alteração pode impactar outras partes do sistema.
Por isso, a preparação para a inteligência artificial não começa necessariamente pela escolha da ferramenta mais avançada.
Ela começa pela organização das informações.
Empresas que estruturam seus dados desde o projeto criam uma base mais preparada para aproveitar automações, análises avançadas e assistentes digitais.
Essa organização também permite transformar a experiência acumulada pela empresa em conhecimento reutilizável, reduzindo dependências individuais e acelerando a tomada de decisão.
Dados conectados do projeto à operação
Uma das tendências mais relevantes observadas no AU 2026 está na continuidade das informações entre projeto, implantação e operação.
Em muitos empreendimentos, cada transição cria uma ruptura. Dados produzidos em uma etapa são convertidos, reorganizados ou até reconstruídos pela equipe seguinte. Parte do contexto pode ser perdida a cada transferência.
A continuidade digital busca reduzir essas interrupções.
Isso não significa concentrar tudo em um único sistema. Significa garantir que as informações possam ser identificadas, relacionadas, acessadas e atualizadas de maneira coerente pelas pessoas que precisam utilizá-las.
Essa conexão pode contribuir para:
Reduzir o retrabalho entre as fases;
Aumentar a rastreabilidade das decisões;
Melhorar o acesso às informações;
Facilitar a transferência do projeto para a operação;
Apoiar a manutenção com dados mais confiáveis;
Preparar a organização para gêmeos digitais e inteligência artificial.
Para atingir esse nível, não basta integrar tecnicamente diferentes plataformas.
É necessário definir padrões de informação, responsabilidades, regras de atualização e critérios de governança.
A tecnologia conecta os sistemas. A estratégia define o que deve ser conectado, por que essa conexão é necessária e como a informação continuará gerando valor.
O que a Draft Solutions leva do AU 2026
A participação no AU 2026 ajudou a Draft Solutions a identificar oportunidades em três frentes.
Internamente, a empresa pretende ampliar o uso de inteligência artificial nas etapas em que a tecnologia já consegue devolver tempo aos engenheiros, sempre mantendo a revisão humana dos resultados.
Junto aos clientes, a prioridade está em incorporar os requisitos de operação desde o início do projeto, organizando os dados para que a transição entre implantação e uso do ativo aconteça de forma mais eficiente.
Para o mercado brasileiro, existe a oportunidade de ampliar a discussão sobre como inteligência artificial, BIM, gêmeos digitais e dados conectados estão transformando a engenharia a partir de casos reais.
Como New Business Director da Draft Solutions, Marcio traz para essa discussão uma perspectiva que combina tecnologia, engenharia e estratégia de negócios.
A questão central não está apenas na viabilidade técnica das soluções, mas na capacidade de utilizá-las para melhorar entregas, aumentar a previsibilidade, preservar conhecimento e gerar mais valor para os clientes.
Tecnologia com direção
Ao agradecer o convite e a parceria da NTI Brasil, Marcio destaca que eventos como o AU são relevantes não apenas pelas novidades apresentadas, mas pela clareza de direção que proporcionam.
“Eventos como o AU valem muito mais pela clareza de direção que trazem do que pelas novidades que apresentam.”
Marcio Milagres
New Business Director | Draft Solutions
Essa clareza ajuda empresas, parceiros e profissionais a compreender para onde a indústria está avançando e como podem começar a se preparar.
Para a NTI Brasil, compartilhar essas diferentes perspectivas permite transformar tendências globais em discussões conectadas à realidade do mercado brasileiro.
A visão da Draft Solutions amplia o debate ao mostrar que a jornada digital não termina no projeto. Ela continua durante a implantação, a operação, a manutenção e a evolução do ativo.
Ampliar a capacidade de entregar
A visão da Draft Solutions complementa as discussões apresentadas ao longo desta série.
Se Léo Onuchic abordou a convergência entre inteligência artificial e dados conectados, Kelly Tonon destacou a importância das conexões humanas que sustentam a inovação e Paulo Santos aprofundou a discussão sobre Digital Thread e PLM, Marcio Milagres amplia essa reflexão ao mostrar que o verdadeiro desafio não está apenas em adotar novas tecnologias, mas em transformar essas tecnologias em capacidade de entrega.
O Autodesk University 2026 reforçou que a engenharia está entrando em uma nova fase.
A inteligência artificial continuará avançando. Os modelos se tornarão mais conectados. Gêmeos digitais ganharão novas aplicações. As plataformas aproximarão projeto e operação de maneiras cada vez mais profundas.
Mas os resultados dessas transformações não serão determinados apenas pela disponibilidade tecnológica.
Eles dependerão da forma como as organizações estruturam seus dados, preservam seu conhecimento, preparam seus profissionais e conectam decisões ao longo do ciclo de vida dos ativos.
Para Marcio Milagres, o desafio não é simplesmente produzir mais modelos, adotar mais ferramentas ou automatizar mais tarefas.
O desafio é ampliar a capacidade das empresas de entregar valor com consistência.
Isso significa utilizar a inteligência artificial para reduzir a carga repetitiva sem renunciar ao julgamento humano. Significa desenvolver projetos que continuem gerando valor depois da entrega. Significa transformar o BIM em uma base de informações e fazer do gêmeo digital uma continuidade possível da engenharia.
O futuro não pertencerá necessariamente às empresas que acumularem mais tecnologias.
Pertencerá às organizações que souberem conectar conhecimento, pessoas, processos e dados para ampliar sua capacidade de realizar.
Porque a verdadeira transformação não acontece quando um projeto termina.
Ela acontece quando a informação continua gerando valor durante toda a vida do ativo.
Sobre Marcio Milagres
Marcio Milagres é New Business Director da Draft Solutions. Sua atuação conecta estratégia de negócios, transformação digital e engenharia, com foco em soluções capazes de ampliar a capacidade das organizações e gerar valor ao longo do ciclo de vida dos ativos.
Durante o Autodesk University 2026, acompanhou discussões relacionadas à inteligência artificial, BIM, dados conectados, gêmeos digitais e integração entre projeto e operação.