Ao longo do Especial AU 2026, diferentes profissionais compartilharam perspectivas complementares sobre as transformações que estão redefinindo a engenharia, a construção e a manufatura.
Léo Onuchic, Diretor Adjunto da NTI Brasil, destacou como inteligência artificial e dados conectados estão impulsionando uma nova geração de soluções digitais. Kelly Tonon, Gerente de Contas Estratégicas da NTI Brasil, trouxe reflexões sobre a importância da colaboração, dos relacionamentos e da troca de experiências para acelerar a inovação. Paulo Santos, Head de Design & Manufacturing na NTI Brasil, aprofundou a discussão sobre PLM, Digital Thread e a necessidade de estruturar informações para que a inteligência artificial possa gerar valor real. Na sequência, Marcio Milagres, New Business Director da DS Global Engineering, abordou a ampliação da capacidade de entrega por meio da continuidade dos dados.
A visão da MRV complementa essa narrativa sob uma realidade particular: a da construção em larga escala.
Se os artigos anteriores mostraram como IA, Digital Thread, PLM, BIM e continuidade digital estão transformando diferentes setores da engenharia, a pergunta que surge agora é outra:
O que é necessário para que tudo isso funcione em escala?
Para Isadora Branquinho e Gabriel Veloso, a resposta começa antes da inteligência artificial.
Ela começa nos dados.
Durante o Autodesk University 2026, uma mensagem apareceu de forma recorrente em palestras, demonstrações e discussões técnicas: o potencial da IA cresce na mesma proporção da qualidade das informações disponíveis para ela.
Em outras palavras, a tecnologia está evoluindo rapidamente. Mas a vantagem continuará pertencendo às organizações que tiverem dados padronizados, confiáveis e conectados.
“A tecnologia avança rápido, e a vantagem está em quem tem dado padronizado, confiável e conectado para aproveitá-la.”
Isadora Branquinho e Gabriel Veloso
Gestora de Projetos e Coordenador do Núcleo BIM | MRV
O dado passa a ser mais importante do que o arquivo
Um dos principais aprendizados do Autodesk University 2026 foi perceber como a indústria está migrando de uma lógica baseada em documentos para uma lógica baseada em dados.
Durante muitos anos, os processos BIM estiveram concentrados na criação, organização e compartilhamento de arquivos. Modelos, desenhos, planilhas e documentos eram os principais ativos do fluxo de trabalho.
Agora, essa lógica começa a mudar.
O dado passa a ser o elemento central.
O ambiente comum de dados, ou CDE (Common Data Environment), deixa de funcionar apenas como um local para armazenar documentos e passa a integrar efetivamente o processo de tomada de decisão.
Isso significa que as informações produzidas em uma etapa podem ser reaproveitadas nas fases seguintes sem a necessidade de recriação ou transferências manuais.
No roadmap apresentado pela Autodesk, chamou a atenção da equipe da MRV justamente essa preocupação em permitir que o dado criado em uma fase continue gerando valor na próxima.
No projeto, soluções como o Parameters Service e o Model Analytics apontam para uma estrutura mais organizada de parâmetros e métricas dos modelos.
Na pré-construção, a rastreabilidade entre quantitativos e elementos do modelo fortalece o controle das informações utilizadas no orçamento.
Na obra, agentes inteligentes começam a apoiar atividades operacionais que tradicionalmente demandavam muito esforço manual.
A mensagem é clara: o BIM está evoluindo de um ambiente focado em modelagem para uma plataforma de gestão de informações.
Para empresas que operam em larga escala, essa mudança tem um impacto significativo.
Quando milhares de elementos, dezenas de equipes e múltiplos empreendimentos compartilham a mesma base de informação, a qualidade dos dados passa a influenciar diretamente produtividade, previsibilidade e tomada de decisão.
A inteligência artificial depende do contexto
Outro tema que apareceu de forma recorrente durante o evento foi a evolução da inteligência artificial dentro do ecossistema Autodesk.
Mas existe um ponto importante.
A inteligência artificial não depende apenas da qualidade dos algoritmos. Ela depende da qualidade do contexto ao qual possui acesso.
Uma das sessões mais marcantes para Isadora e Gabriel foi a apresentação sobre as camadas de contexto do Autodesk Assistant.
A demonstração mostrou que memória, relacionamentos entre dados e estado atual do fluxo de trabalho são fatores determinantes para aquilo que um agente consegue interpretar e responder.
Isso ajuda a explicar por que muitos profissionais ainda encontram limitações quando utilizam IA em ambientes complexos de engenharia.
Um agente pode ser extremamente avançado, mas continuará produzindo respostas limitadas caso não tenha acesso às informações corretas.
Por isso, a preparação para a inteligência artificial começa muito antes da própria IA.
Ela passa pela padronização de parâmetros, pela definição de requisitos de informação claros, pela organização das famílias BIM e pela validação contínua dos dados.
Sem essa base, não existe contexto suficiente para que agentes inteligentes atuem com segurança.
Uma das frases apresentadas durante o evento resumiu bem esse desafio:
“A IA ainda precisa de mais contexto de projeto.”
Para a MRV, essa constatação reforça uma filosofia importante: não faz sentido automatizar processos que ainda não são plenamente compreendidos pela própria organização.
“Não devemos automatizar aquilo que a equipe não consegue explicar, testar e reverter.”
Isadora Branquinho e Gabriel Veloso
Gestora de Projetos e Coordenador do Núcleo BIM | MRV
Essa visão cria uma relação mais madura com a tecnologia.
Quanto maior for a autonomia de um agente, maior deve ser o nível de validação, governança e rastreabilidade associado às suas ações.
Três movimentos que vão transformar a construção
A partir das discussões acompanhadas no AU 2026, Isadora e Gabriel identificam três movimentos que devem impactar fortemente o setor nos próximos anos.
Agentes que executam tarefas
A primeira tendência é a evolução dos agentes de inteligência artificial.
O futuro não está apenas em sistemas capazes de responder perguntas, mas em agentes capazes de executar atividades dentro dos fluxos de trabalho.
Isso inclui análises, verificações, geração de documentos, acompanhamento de informações e outras atividades atualmente realizadas manualmente.
Essa evolução já começa a aparecer em plataformas como Forma, Revit e Autodesk Build.
Industrialização orientada por regras
A segunda tendência está relacionada à industrialização.
Os projetos passam a ser estruturados a partir de regras e requisitos previamente definidos, permitindo gerar variações sem reconstruir processos inteiros a cada novo empreendimento.
Essa abordagem aproxima cada vez mais a construção de conceitos já utilizados há anos na manufatura.
Ao invés de desenvolver tudo do zero, passa a existir uma base comum que pode ser configurada conforme as necessidades do projeto.
Escala organizacional
A terceira tendência é menos tecnológica e mais organizacional.
Os maiores resultados aparecem quando padronização, capacitação e indicadores evoluem juntos.
Uma tecnologia pode funcionar perfeitamente em um piloto. O verdadeiro desafio é fazê-la funcionar em escala.
Para empresas como a MRV, esse fator é decisivo.
A inovação só gera impacto quando consegue ser aplicada de forma consistente em diferentes equipes, regiões e empreendimentos.
Quando a máquina consegue compreender as regras
Um dos temas que mais chamou a atenção da equipe da MRV foi a apresentação dos cases do Brazil Infrastructure Summit.
Entre eles, destacaram-se os trabalhos desenvolvidos pela Motiva, MRS Logística e TPF Engenharia, envolvendo validação de modelos apoiada por inteligência artificial.
Os resultados apresentados foram expressivos.
A análise de modelos da MRS foi reduzida de três dias para dez minutos. Já a Motiva registrou uma redução de aproximadamente 70% das horas técnicas dedicadas à análise de projetos.
Mais importante do que os números, entretanto, foi identificar o elemento comum entre todos os casos.
Em todos eles, os requisitos de informação estavam estruturados de uma maneira que permitia sua interpretação por sistemas automatizados.
Esse detalhe é fundamental.
Para automatizar uma análise, não basta possuir um documento descrevendo uma regra.
A máquina precisa ser capaz de entender essa regra.
Quando isso acontece, o sistema consegue localizar inconsistências, validar conformidade e direcionar a atenção dos especialistas para os pontos que realmente exigem julgamento técnico.
A tecnologia não elimina a necessidade de especialistas.
Ela reduz o tempo gasto em atividades repetitivas e aumenta a capacidade das equipes de focar naquilo que realmente exige conhecimento humano.
Outro exemplo citado durante o evento foi a implantação regional de BIM da Arcos Dorados, baseada em mais de 2.500 famílias BIM e 180 configurações padronizadas.
O principal aprendizado não estava apenas no volume de conteúdo produzido, mas na capacidade de utilizar padronização e indicadores para apoiar decisões de negócio.
Para a MRV, esses exemplos reforçam uma convicção: a qualidade da informação é o principal habilitador da próxima geração de tecnologias.
O que a MRV leva do AU 2026
Além dos aprendizados estratégicos, o Autodesk University ajudou a MRV a estruturar suas próximas iniciativas em três horizontes.
Testar
Entre as oportunidades mais imediatas estão as funcionalidades beta do Autodesk Build, incluindo o cronograma 4D e o diário de obra baseado em áudio.
São recursos que já podem começar a ser avaliados em cenários reais e controlados.
Pilotar
O segundo horizonte envolve iniciativas que precisam passar por testes direcionados antes de uma adoção mais ampla.
Entre elas estão:
utilização de MCP no Revit e Forma;
troca seletiva de dados em modelos de grande porte;
reutilização de informações do modelo em registros de ativos;
novas abordagens de desenvolvimento baseadas em especificação escrita.
Estruturar
O terceiro horizonte é, talvez, o mais importante.
Ele envolve fortalecer os fundamentos que permitirão sustentar todas as iniciativas futuras.
Isso inclui:
governança de parâmetros;
padronização de famílias;
requisitos de informação legíveis por máquinas;
rastreabilidade entre orçamento e modelo;
tipologias tratadas como produtos configuráveis;
métricas para medir o desempenho antes da automação.
Essa preparação pode não parecer tão revolucionária quanto uma nova ferramenta de IA, mas é justamente ela que tornará possível capturar valor das tecnologias que estão chegando.
Antes da IA, vêm os dados
A participação da MRV no Autodesk University 2026 reforçou uma percepção que apareceu em diferentes momentos ao longo desta série especial: a tecnologia sozinha não produz transformação.
A inteligência artificial continuará evoluindo. Os agentes ganharão autonomia. Os ambientes digitais serão cada vez mais conectados.
Mas nenhuma dessas mudanças conseguirá compensar uma base inconsistente de informações.
Para Isadora Branquinho e Gabriel Veloso, o próximo salto da indústria não depende apenas de novas funcionalidades.
Depende da capacidade das organizações de estruturar seus dados para que possam ser compreendidos por pessoas, sistemas e agentes inteligentes.
Em uma empresa que constrói em escala, essa não é apenas uma questão tecnológica.
É uma questão estratégica.
Porque, antes de escalar a inteligência artificial, é preciso escalar a qualidade da informação.
E essa será uma das principais vantagens competitivas das organizações nos próximos anos.
“Voltamos do AU com uma leitura clara: a tecnologia avança rápido, mas a vantagem está em quem tem dado padronizado, confiável e conectado para aproveitá-la.”
Isadora Branquinho e Gabriel Veloso
Gestora de Projetos e Coordenador do Núcleo BIM | MRV
Sobre os entrevistados
Isadora Branquinho é Gestora de Projetos da MRV e atua em iniciativas relacionadas à evolução dos processos digitais, integração de informações e aplicação do BIM em escala.
Gabriel Veloso é Coordenador do Núcleo BIM da MRV, com atuação voltada à governança de dados, padronização de modelos, automação e ampliação da maturidade BIM dentro da organização.